Os 11 consulados-gerais do Brasil nos Estados Unidos registraram um número recorde de pedidos de certidão de nascimento para crianças nascidas no país e filhas de ao menos um genitor brasileiro. Os dados do Itamaraty indicam que foram mais de 21 mil solicitações no último ano, contra 5.660 em 2021, um crescimento de 271% no período.
O aumento foi observado em todos os postos e, segundo relatos de brasileiros e de pessoas que atuam na área consular, tem como principal causa a política de imigração do governo de Donald Trump. A exigência de visto para brasileiros viajarem aos EUA, que passou a valer no primeiro semestre do ano passado, também influenciou os números.
Um caso que ilustra essa situação é o de uma mãe de trigêmeas, que retornou ao Brasil após o marido ser deportado. Ela recorreu ao consulado em regime de urgência para conseguir as certidões de nascimento das filhas e os passaportes. Em outras situações, pais buscaram o documento com receio de que, se detidos pela imigração, os filhos fossem enviados para abrigos nos EUA, separando a família.
Essa prática de separação de famílias foi comum no primeiro mandato de Trump. Neste segundo mandato, há relatos semelhantes, embora em menor escala e sem uma política oficial declarada. O Brasil, no entanto, não recebeu relatos de casos envolvendo brasileiros.
Há também quem solicite a certidão para viajar com os filhos ao Brasil, já que, desde abril de 2025, cidadãos americanos precisam de visto de turista para entrar no país. Com o documento brasileiro, a criança pode viajar sem essa exigência.
Os consulados de Boston, Nova York e Miami, que atendem as maiores comunidades brasileiras, foram os que mais receberam pedidos. O crescimento nesses postos foi de 551%, 339% e 119%, respectivamente, entre 2021 e 2025.
Para obter a certidão de nascimento de uma criança menor de 12 anos, a família deve apresentar a certidão de nascimento do menor, a certidão brasileira do pai ou da mãe e, se for o caso, a do genitor estrangeiro. Para maiores de 12 anos, são exigidas declarações de duas testemunhas. O processo no consulado é gratuito, enquanto no Brasil envolve custos com apostilamento e traduções, além da necessidade de confirmar a nacionalidade brasileira na Justiça quando a pessoa completa 18 anos.
Desde janeiro de 2025, ao menos 5.000 brasileiros foram deportados dos EUA em 63 voos. Entre eles, 164 menores de idade, a maioria crianças que voltaram com os pais. Nove adolescentes foram deportados sozinhos e encaminhados para familiares no Brasil. Segundo o Ministério de Direitos Humanos e Cidadania, essas crianças chegam com documentos americanos e são orientadas a tirar a documentação brasileira.
