O Tesouro Nacional realizou duas novas recompras de títulos públicos nesta terça-feira, 17 de março. O objetivo foi conter a escalada das taxas de juros futuros após a guerra no Irã elevar o preço do petróleo, o que trouxe receio de um repique inflacionário.
As intervenções buscam reduzir a volatilidade no mercado de juros, que serve de base para estimar a trajetória futura da taxa básica, a Selic. Esta taxa é referência para empréstimos e financiamentos no país.
Com os novos leilões, a atuação do Tesouro somou R$ 43,6 bilhões em apenas dois dias. Em termos nominais, este valor supera a intervenção feita em 2020, durante as incertezas da pandemia de Covid-19. Naquela ocasião, foram recomprados R$ 35,56 bilhões em títulos ao longo de 15 dias.
Segundo a corretora Warren Rena, a atuação atual é a maior dos últimos 13 anos, pelo menos. Em eventos como as manifestações de 2013 ou a greve dos caminhoneiros em 2018, o volume foi menor. Considerando também vendas extraordinárias de papéis, a intervenção atual soma R$ 41,94 bilhões, contra R$ 33,1 bilhões na pandemia.
Um integrante do Tesouro afirmou que a decisão seguiu critérios técnicos, para conter a volatilidade em um momento de elevada incerteza. O preço mais alto do petróleo pode levar a aumentos de preços na economia.
No mercado, chamou atenção a intervenção ocorrer na semana da decisão de juros pelo Copom, o Comitê de Política Monetária. Habitualmente, o Tesouro evita atuar nesse período para não passar a impressão de tentar influenciar as expectativas de juros, já que a recompra de títulos tende a reduzir a pressão sobre as taxas.
A curva de juros é uma das referências para as expectativas sobre a Selic. Taxas mais elevadas poderiam indicar menor espaço para o Banco Central cortar os juros, o que iria contra o desejo do governo no momento.
Uma pesquisa da Bloomberg com 30 analistas mostrou que 19 preveem um corte de 0,25 ponto percentual na reunião do Copom. Outros dez apostam em uma queda de 0,5 ponto, e uma instituição vê a taxa mantida em 15%. Antes do agravamento do conflito no Irã, a previsão mais comum era de redução de 0,5 ponto.
Para um técnico ouvido, o Tesouro optou por uma postura proativa e uma estratégia agressiva desde o início. A intenção foi evitar que o custo de uma atuação futura, em um momento de maior disfunção nos mercados, fosse ainda mais alto.
Essa postura é diferente da observada em dezembro de 2024. Na época, o mercado ficou sem referência durante a eleição de Donald Trump nos EUA e a votação do pacote de contenção de gastos do ministro Fernando Haddad. Havia temor de que as medidas fossem muito alteradas pelo Congresso.
Para representantes do mercado, a questão agora é saber por quanto tempo o Tesouro continuará atuando. É comum que as intervenções durem alguns dias seguidos, mas isso é uma decisão discricionária, que depende da avaliação sobre o funcionamento do mercado.
Nesta terça-feira de manhã, foram dois leilões extraordinários. Foram recomprados 7,6 milhões de LTNs e 5 milhões de NTN-Fs, ambos títulos prefixados, em um valor total de R$ 9,05 bilhões.
À tarde, o Tesouro fez duas novas operações, desta vez em títulos NTN-Bs, atrelados à inflação. Foram recomprados 1,63 milhão de títulos e vendidos 244 mil, com um volume financeiro de R$ 7,076 bilhões. A intenção inicial era vender até 1,2 milhão e comprar até 4 milhões.
Essas operações seguiram outras duas feitas na véspera, quando o Tesouro recomprou R$ 27,5 bilhões em títulos prefixados.
A leitura corrente no mercado é de que essas intervenções são legítimas para corrigir disfunções e não têm a intenção de mudar a postura do Copom. Analistas afirmam que o Banco Central leva em conta outros fatores, como o nível de atividade econômica, o câmbio e o comportamento da inflação.
André Galhardo, economista-chefe da Análise Econômica, disse que se a intenção fosse mexer com o Copom, a atuação do Tesouro seria insuficiente. Enrico Gazola, da Nero Consultoria, compartilha da visão de que a ação é uma resposta tática a um mercado fragilizado, e não uma tentativa deliberada de ancorar a taxa de juros.
Ainda assim, a comunicação do Copom em sua reunião precisará ser muito bem calibrada para evitar ruídos ou a percepção de interferência na atuação do Banco Central. O tom do comunicado será determinante para as projeções do mercado sobre os próximos passos da Selic.
Os leilões desta terça, porém, foram ofuscados pela ameaça de uma paralisação de caminhoneiros, em meio à alta do preço do diesel. A taxa do DI para janeiro de 2027 fechou a 14,13%, em alta de 0,06 ponto percentual. O DI para janeiro de 2035 ficou praticamente estável a 13,78%.
O dólar comercial encerrou o dia em queda de 0,58%, cotado a R$ 5,19. A Bolsa de Valores subiu 0,29%, fechando a 180.409 pontos.
Viviane Las Casas, da Valor Investimentos, destacou o risco de a greve pressionar o orçamento público com subsídios, como ocorreu em 2018. Ela também alertou para o risco inflacionário caso a paralisação se prolongue, lembrando que a greve daquele ano causou falta de combustível e alimentos, elevando a inflação.
